
Segundo dia do do São Paulo REALCUP 2025 discute a questão da avaliação institucional e acadêmica (Foto: Wilson Camargo/Mackenzie)
A primeira sessão do segundo dia do São Paulo REALCUP 2025, com aliança estratégica do Consórcio STHEM, retomou, nesta quinta-feira (13) na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o eixo central do encontro: como instituições e sistemas de ensino superior podem projetar seu futuro a partir de práticas avaliativas mais inteligentes, pertinentes e transformadoras. Durante a sessão sobre “O papel estratégico da autoavaliação na transformação do ensino superior”, Anna Prades, diretora de Relações Internacionais e Desenvolvimento do Conhecimento da AQU Catalunya, uma agência avaliativa espanhola, destacou o papel decisivo da avaliação como motor de mudança institucional.
Ao longo de sua exposição, Prades reforçou que a transformação da educação superior depende da articulação entre garantia interna e externa de qualidade, especialmente em um cenário pressionado por novas demandas de agilidade, impactos da inteligência artificial, modelos pedagógicos emergentes, microcredenciais e a revisão permanente do sentido da avaliação.
Segundo elas, nenhuma instituição consolidada alcança maturidade por acaso. Sistemas internos robustos – compostos por processos, rotinas e mecanismos de monitoramento – permitem acompanhar o funcionamento diário das IES e que estas tomem decisões com base em indicadores dinâmicos. Essa estrutura, mais do que um requisito regulatório, constitui o próprio caminho pelo qual as instituições aprimoram continuamente seus resultados acadêmicos e institucionais. Ela ressaltou, entretanto, que a expansão de modelos avaliativos e agências externas traz novos desafios, destacando questões sobre a existência de práticas pedagógicas inovadoras e da pertinência da avaliação da qualidade diante das mudanças aceleradas que atravessam o setor.
Em relação aos sistemas de avaliação externos, Prades lembrou que esses sistemas surgiram para responder à necessidade social de confiabilidade sobre os profissionais que chegam ao mercado de trabalho. O objetivo, argumenta, continua atual: assegurar padrões mínimos de qualidade e construir confiança pública. No entanto, ela defendeu que os modelos de garantia externa precisam ganhar agilidade e incorporar novos instrumentos capazes de captar tendências contemporâneas, tornando programas e currículos mais permeáveis a transformações tecnológicas e sociais.

Anna Prades, diretora de Relações Internacionais e Desenvolvimento do Conhecimento da AQU Catalunya (Foto: Wilson Camargo/Mackenzie)
Qualidade universitária
A palestrante provocou o público ao discutir diferentes concepções de qualidade universitária. Ela apresentou perspectivas amplamente utilizadas: a qualidade como perfeição ou excelência, ligada a processos controlados e atos administrativos rigorosos; a qualidade como ajuste a objetivos, valorizando eficiência e resultados em relação aos recursos investidos; e a qualidade como transformação, entendida como o impacto formativo que a instituição gera no estudante, desde seu ingresso até a sua profissionalização. Para Prades, essa última dimensão é central e inevitavelmente contextual: o que se entende como qualidade muda ao longo do tempo, entre países e entre culturas acadêmicas.
Embora reconheça a natureza humana, complexa e não linear dos processos formativos, Prades defende que somente estruturas de qualidade bem estabelecidas permitem garantir que as instituições entreguem o perfil de formação que prometem. “Resultados consistentes não acontecem por acaso”, enfatizou. Ela argumentou que o principal desafio não é o volume de procedimentos, mas garantir que os sistemas avaliativos ajudem a tomar decisões, em vez de se reduzirem a um “fardo burocrático” de formulários que pouco dialogam com a prática institucional.
Ao final, Prades lançou uma pergunta decisiva às instituições presentes: que tipo de radiografia interessa à sua instituição? A resposta, sugere, é o que diferencia um sistema de avaliação meramente documental de um processo capaz de orientar decisões estratégicas e fortalecer a relação entre formação superior e mercado de trabalho. A sessão reforçou que, no centro das discussões sobre qualidade, permanece uma questão fundamental: como construir sistemas avaliativos que não apenas atestem o que as IES fazem, mas que contribuam efetivamente para que façam melhor.

Sessão sobre “Garantia de qualidade e planos estratégicos em contextos dinâmicos” (Foto: Wilson Camargo/Mackenzie)
Garantia de qualidade e planos estratégicos em contextos dinâmicos
A questão da qualidade e da avaliação prosseguiu na sessão seguinte do São Paulo REALCUP 2025: “Garantia de qualidade e planos estratégicos em contextos dinâmicos”, que contou com a participação do presidente do INEP, Manuel Palácios, que apontou que o Brasil precisa enfrentar com mais precisão os desafios decorrentes da diversidade do próprio sistema de educação superior, hoje composto por cerca de dez milhões de estudantes.
Um dos pontos enfatizados pelo presidente do INEP foi o crescimento do conjunto de instituições que oferecem cursos mediados por tecnologia, especialmente na modalidade a distância ou em formatos semipresenciais com polos pequenos e maior grau de descentralização. “Esse cenário exige que a avaliação considere não apenas a oferta acadêmica em si, mas também a qualidade do serviço educacional prestado: a capacidade tecnológica da instituição, a forma como organiza seus polos, a garantia de práticas formativas adequadas e as condições de socialização e acompanhamento dos estudantes”, defendeu Palácios. Segundo ele, a lógica de avaliação é distinta daquela aplicada às instituições que oferecem predominantemente cursos presenciais tradicionais, razão pela qual padrões de avaliação diferenciados se tornam indispensáveis.
Outro eixo destacado por ele foi a construção de diretrizes capazes de evidenciar como essas instituições se relacionam com o mundo do trabalho e com o ambiente universitário mais amplo. “A avaliação, nesse caso, deve ser capaz de capturar o grau de integração entre formação profissional, pesquisa e práticas acadêmicas, de modo que os resultados reflitam não apenas a infraestrutura e os processos, mas também a efetiva inserção do estudante em experiências formativas mais completas”, pontuou.
Palácios lamentou ainda a falta de mais pesquisas sobre a educação superior. “Precisamos investir mais em pesquisa sobre o ensino superior, medindo o impacto das IES para o desenvolvimento do país, por exemplo”, citou. De acordo com o presidente do INEP, não faz sentido que diferentes tipos de instituições sejam avaliadas da mesma forma. Para ele, todas as instituições devem ser avaliadas a partir dos mesmos critérios em relação à qualidade dos cursos, mas as IES maiores também devem ser avaliadas de forma institucional a partir dos impactos que elas causam na sociedade de forma geral.
A sessão contou ainda com as participações de Juan Pablo Mena, CEO da UPlanner; Martín Strah, presidente da CONEAU (Argentina); Rafael Llavori, diretor adjunto da Calidad Internacional PROEDUCA, com moderação de Ariana De Vincenzi, vice-reitora acadêmica da Universidad Abierta Interamericana (Argentina).








