
Karina Tomelin entrevista Diogo Henrique Vianna, professor da Unifeob.
Por Karina Nones Tomelin
Para esta edição do Docência no Divã, viajei até o interior de São Paulo, em São João da Boa Vista, para conversar com o professor Diogo Henrique Vianna, da Unifeob. A universidade fica em uma das partes mais altas da cidade e isso não é um detalhe qualquer. São João da Boa Vista é conhecida justamente pelas paisagens amplas e pelos fins de tarde em que o sol costuma pintar o horizonte de tons quentes. Do alto do campus, a vista parece ainda mais generosa. Foi ali, num fim de tarde, com a cidade se abrindo diante de meus olhos e o céu lentamente mudando de cor, que comecei mais uma conversa desta coluna.
Logo no início da conversa, Diogo traz uma trajetória bastante comum entre professores universitários: a docência não aparece necessariamente como a primeira profissão que os acolhe, mas vai se constituindo ao longo do caminho. Diferentemente da ideia de um projeto de vida previamente definido, tornar-se professor, no seu caso, foi resultado de um percurso que, pouco a pouco, o aproximou da educação. A sala de aula não surgiu como um destino planejado, mas como um lugar que foi ganhando sentido ao longo da sua trajetória.
“Eu acho que a ideia de ser professor não nasceu como um propósito inicial. Na verdade, olhando para trás, percebo que isso acontece com muitos professores do ensino superior. A gente se forma em uma área: direito, engenharia, história e, de repente, está dentro de uma sala de aula. A docência vai acontecendo como parte de um processo formativo da própria vida.”
Para compreender o caminho de Diogo até a sala de aula, é preciso voltar um pouco mais atrás, antes da universidade, antes da profissão, antes mesmo de qualquer decisão consciente sobre carreira. Ele nasceu em uma família em que o acesso à educação formal foi limitado. Seus pais estudaram apenas até os primeiros anos da escola. Ainda assim, a educação sempre foi profundamente valorizada dentro de casa.
“Meu pai e minha mãe estudaram até a terceira e quarta série. Então, existia uma falta de escolaridade na família, mas, ao mesmo tempo, havia uma valorização muito grande da educação. A minha mãe acreditava muito nisso. A escola era algo muito importante para ela. Mesmo sem terem tido oportunidades, meus pais sempre incentivaram muito o estudo.”
Quando concluiu o ensino médio, Diogo sabia que queria continuar estudando. Mas também sabia que aquele caminho exigiria paciência. O ensino superior ainda não era algo imediatamente acessível. Foi assim que ingressou no curso de História. A escolha não foi necessariamente estratégica. Não havia um plano profissional definido. Havia, antes de tudo, interesse pelo conhecimento.
“Eu pensei em outras áreas também, como filosofia ou letras. Mas acabei escolhendo História. Fiz a licenciatura, me diverti muito durante o curso, gostei muito da experiência universitária. Mas, curiosamente, mesmo fazendo licenciatura, em nenhum momento eu pensava em ser professor. Tinha colegas que diziam desde o primeiro semestre: ‘eu quero dar aula’. Eu não. Eu estava ali porque gostava de estudar.”
O encontro com a sala de aula
A docência ainda não era um projeto. Mas a vida começava a aproximá-lo dela. Depois de formado, veio um momento que muitos jovens conhecem bem: o encontro com o vazio do mercado de trabalho. Foi nesse contexto que surgiu uma oportunidade inesperada: um processo seletivo para trabalhar como analista educacional na Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais.
Diogo foi selecionado. E ali começou uma experiência que mudaria sua relação com a educação. Durante esse período, ele atuou na Superintendência Regional de Ensino de Poços de Caldas, trabalhando com avaliação educacional em larga escala. Seu trabalho envolvia acompanhar escolas, professores e processos de aprendizagem em diferentes municípios.
“Foi uma experiência muito intensa. Nós trabalhávamos com 17 cidades, 42 escolas e mais de mil professores. Eu transitava por diferentes cenários: entrava nas escolas, conversava com professores, acompanhava processos pedagógicos, observava o que acontecia dentro das salas de aula.”
Ainda não era professor. Mas já estava profundamente imerso no universo da educação. Esse período funcionou como uma espécie de laboratório. Um aprendizado antes da docência. E foi justamente por causa dessa experiência que surgiu o convite que mudaria sua trajetória.
Na época, a Unifeob passava por um processo de reformulação pedagógica. Diogo foi convidado para conduzir uma oficina com professores da instituição. O encontro deu certo. A conversa continuou. E logo veio um novo convite: integrar o corpo docente.
“Eu fui convidado para fazer uma oficina com os professores aqui da Unifeob, dentro desse processo de reformulação pedagógica. E, a partir dessa experiência, surgiu o convite para eu entrar no curso de História da instituição. E aí, de repente, eu estava dentro de uma sala de aula.”
Essa passagem marcou uma mudança importante no seu percurso profissional. Até então, Diogo transitava pelo campo da educação a partir da gestão e da avaliação de políticas educacionais, acompanhando escolas, professores e indicadores de aprendizagem. O convite da Unifeob representava algo diferente: sair do olhar sobre o sistema educacional para ocupar, ele próprio, o lugar do professor dentro da sala de aula. Era uma travessia do trabalho no entorno da educação para a experiência direta de ensinar.
“Quando você começa a se envolver com os estudantes, com os processos de aprendizagem, com as perguntas que surgem em sala… você começa a acreditar naquilo. E, quando percebe, a docência já faz parte da sua vida. Já são 12 anos aqui na Unifeob, transitando por diferentes cursos, diferentes experiências. E posso dizer que, de fato, a docência aconteceu.”
Quando a docência se torna profissão
Com o passar do tempo, a sala de aula deixou de ser apenas um espaço de atuação eventual e passou a ocupar um lugar central na vida de Diogo. A docência foi se instalando no cotidiano de forma silenciosa, quase orgânica. Vieram as primeiras turmas, as primeiras dúvidas sobre como explicar melhor um conceito, como organizar o tempo da aula, como tornar uma discussão mais significativa para os estudantes.
Aos poucos, ele percebeu que ensinar não se limitava ao momento em que o professor está diante da turma. Ser professor envolve pensar a aula antes, revisitar o que aconteceu depois, buscar exemplos, ajustar estratégias e repensar caminhos a partir das interações com os estudantes. É nesse processo contínuo que, para muitos docentes, a docência deixa de ser apenas uma atividade e passa a se afirmar como profissão.
“Existe uma ideia de que o trabalho do professor pode ser medido apenas em horas de aula. Mas isso simplesmente não é possível. Porque a aula é apenas a ponta de um processo muito maior. Ser professor é uma atividade que atravessa a vida inteira. Você está assistindo a um filme e pensa: isso aqui pode virar uma discussão interessante em sala de aula. Você lê uma reportagem e pensa: isso daria um exemplo para explicar determinado conceito. A docência não acontece só na hora da aula.”
Ao falar sobre o cotidiano da sala de aula, Diogo amplia o olhar para algo que, segundo ele, tem se tornado cada vez mais evidente no ensino superior: uma mudança na forma como muitos estudantes se relacionam com a própria ideia de estudar.
Hoje, o professor universitário lida com turmas muito diversas, formadas por jovens que chegam à universidade com expectativas diferentes e, muitas vezes, pouco claras. Alguns estão ali movidos pelo desejo de aprender e aprofundar conhecimentos. Outros buscam principalmente uma qualificação profissional que lhes permita maior estabilidade no mercado de trabalho. Há também aqueles que ainda estão tentando compreender o próprio caminho.
Nesse cenário, a universidade deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conteúdos e passa a ser, também, um lugar de construção de sentido. Não raramente, o professor precisa lidar com estudantes que ainda estão tentando entender o porquê de estarem ali.
Essa falta de clareza, explica Diogo, acaba se refletindo em comportamentos que hoje são comuns nas salas de aula: dificuldade de concentração, engajamento irregular e uma relação mais frágil com o processo de aprendizagem. Para explicar essa dinâmica, ele recorre a uma imagem simples que ouviu recentemente de outro professor. Segundo a metáfora, aprender é como uma porta que se abre por dentro. Nenhum professor, por melhor que seja, consegue abri-la pelo lado de fora. Quem precisa fazer esse movimento é o próprio estudante. Por isso, ele insiste em um ponto que considera essencial:
“Ser professor é uma profissão. Não é um sacerdócio, não é algo improvisado, não é algo que acontece porque ‘sobrou’. É uma profissão que exige técnica, preparação, responsabilidade e compromisso com a formação das pessoas.”
A reflexão sobre a própria prática
Nesse cenário, Diogo acredita que o papel do professor ganha uma dimensão ainda mais importante. Vivemos, segundo ele, em uma época marcada por excesso de informação. Mas informação não é o mesmo que conhecimento. Nesse contexto, o professor assume um papel que ele chama de curadoria. Ele então atua como alguém que ajuda a construir caminhos.
“Os estudantes vivem em um mundo de influencers, coaches, vídeos curtos, redes sociais. É muita informação o tempo inteiro. Muitas vezes, eles não sabem para onde olhar. Eu acredito muito nesse papel de curadoria. O professor precisa dizer: ‘vem por aqui’. Precisa ajudar o estudante a observar um cenário, a perceber um debate, a entender uma questão.”
Mas essa função exige responsabilidade. Para exercer esse papel de curador, o professor precisa estar atento aos debates da sua área, manter-se em constante estudo, atualizar-se e acompanhar o que está acontecendo no campo do conhecimento em que atua. Não é possível permanecer preso a referências antigas ou interromper esse movimento de aprendizagem contínua.
Um exercício final provocado pelo professor Diogo e que gostaria de compartilhar é este: ao final de uma aula, perguntar a si mesmo se aquele encontro realmente valeu a pena para os estudantes. Muitos estudantes chegam à universidade depois de um dia inteiro de trabalho, enfrentam longos deslocamentos até o campus e ainda dedicam suas noites à formação.
Diante disso, a aula não pode ser apenas mais uma atividade a cumprir no calendário acadêmico. Ela precisa oferecer algo que justifique esse esforço: provocar reflexão, ampliar repertórios, abrir caminhos de pensamento que o estudante talvez não percorresse sozinho.
Como ele resume, essa é uma responsabilidade central de quem ensina: “Se o estudante sai da aula e pensa que poderia ter visto aquilo sozinho na internet, então algo deu errado. A aula precisa levar o estudante a experiências e reflexões que ele não teria sem aquele encontro”.
É nesse compromisso silencioso, o de honrar o tempo, a expectativa e o esforço de quem chega à sala de aula para aprender, que a docência revela uma de suas dimensões mais profundas. Ao professor Diogo, fica o agradecimento por compartilhar reflexões tão generosas e provocadoras sobre o sentido de ensinar e sobre o cuidado que cada aula merece.







