Karina Nones Tomelin entrevista a professora Ana Daniela

Por Karina Nones Tomelin

Em um cenário em que a educação superior discute inteligência artificial, metodologias ativas, novas tecnologias e mudanças geracionais, a professora Ana Daniela nos lembra de algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: aprender o nome, a história e os sonhos dos estudantes ainda pode ser uma das mais importantes estratégias pedagógicas.

Biomédica da primeira turma do curso em Santa Catarina, o que a enche de orgulho, Ana acompanha a história da profissão desde o início. Sua relação com a docência também começou cedo. Apenas dois anos após a graduação, já estava diante de uma sala de aula, assumindo o desafio de ensinar antes mesmo de se sentir completamente pronta. Mas isso não a intimidou. Como acontece com muitos professores iniciantes, o primeiro contato foi marcado por inseguranças, dúvidas e pelo inevitável choque entre o conhecimento técnico e a complexidade de ensinar pessoas.

“Foi uma experiência inicialmente traumatizante”, recorda com bom humor. Mas, aos poucos, o que parecia apenas um teste se transformou em profissão. Hoje, além de professora, Ana também atua como coordenadora de curso, acumulando uma trajetória construída entre salas de aula, laboratórios e incontáveis histórias de estudantes.

A juventude diante da autoridade

Começar a lecionar muito jovem trouxe um desafio adicional: conquistar credibilidade diante de alunos que, muitas vezes, eram mais velhos e experientes do que ela. Muitos professores iniciantes acreditam que precisam demonstrar domínio absoluto de tudo para serem respeitados. Ana seguiu o caminho oposto. Em vez de tentar sustentar uma imagem de perfeição, escolheu a humildade.

“Muitas vezes, eram pessoas que já tinham experiência na área e estavam procurando uma formação, então era bastante desafiador, foi uma dor minha, e o caminho que eu adotei para conseguir me adaptar nesse ambiente foi humildade. Desde o início eu sempre aceitei que eu não precisava saber tudo, que eu podia aprender com eles também […] a gente, muitas vezes, acha que o professor tem que chegar na sala de aula sabendo tudo, que ele não precisa; mas, na verdade, ele precisa ter ciência dessa limitação.”

Foi justamente esse reconhecimento das próprias limitações que fortaleceu sua relação com os estudantes. Ao compreender que o conhecimento pode ser construído coletivamente, ela transformou a sala de aula em um espaço de troca, onde ensinar e aprender acontecem simultaneamente. Um ambiente psicologicamente seguro, não somente para ela, mas também para os estudantes. 

O desafio de ensinar gerações diferentes

Ao refletir sobre os maiores desafios da docência contemporânea, Ana não aponta para a tecnologia nem para a complexidade dos conteúdos. Ela fala sobre pessoas. Mais especificamente, sobre gerações. Ao longo dos anos, ela percebeu que os estudantes mudaram; e os professores também precisam mudar.

“O que a gente vivencia hoje é muito diferente de quando comecei a dar aula. Não adianta ser aquele professor do ‘na minha época’. Agora é outro tempo.”

A observação revela que muitos docentes foram formados para ensinar estudantes que já não existem. Os comportamentos, os interesses, as formas de comunicação e até as expectativas em relação à universidade são diferentes.

Por isso, ela acredita que insistir em práticas que funcionavam décadas atrás pode significar perder a conexão com os alunos atuais. Não se trata de abandonar princípios ou valores, mas de compreender que ensinar exige adaptação contínua. E esta é uma característica comum aos professores que permanecem relevantes ao longo dos anos: a capacidade de se reinventar sem perder a essência.

Essa reinvenção, no entanto, vai muito além de incorporar novas tecnologias ou modificar estratégias didáticas. Para Ana, as transformações geracionais também exigem que o professor amplie sua compreensão sobre quem são os estudantes que chegam à universidade. Se antes o foco estava quase exclusivamente no conteúdo, hoje torna-se impossível ignorar as histórias, os contextos e as diferentes realidades que contam a trajetória acadêmica de cada aluno. As salas de aula estão cada vez mais diversas, reunindo pessoas com experiências de vida, origens culturais e desafios muito distintos. Nesse cenário, ensinar passa a envolver não apenas a mediação do conhecimento, mas também a construção de vínculos capazes de sustentar a permanência e o desenvolvimento desses estudantes.

Talvez por isso, quando pergunto sobre alunos que marcaram sua trajetória, Ana não recorda imediatamente de alguém que obteve as melhores notas ou recebeu uma premiação acadêmica. O nome que surge é o de Afonso, um estudante imigrante que chegou ao Brasil carregando não apenas as dificuldades naturais de um curso superior, mas também os desafios da adaptação a uma nova língua, uma nova cultura e um novo país. Em muitos momentos, as barreiras linguísticas dificultavam sua aprendizagem e exigiam uma atenção diferenciada por parte dos professores. Mais do que ensinar conteúdos, era necessário criar condições para que ele pudesse se sentir pertencente àquele espaço.

Ao longo da graduação, Ana acompanhou de perto sua trajetória e, até hoje, de vez em quando, envia mensagens compartilhando notícias sobre sua vida profissional.

O segredo não está na metodologia

Em tempos de busca incessante por metodologias inovadoras, ferramentas digitais e estratégias de engajamento, a resposta de Ana surpreende pela simplicidade. Quando questionada sobre o segredo de suas práticas pedagógicas, ela não menciona nenhuma técnica específica. Fala sobre escuta. Para ela, toda pessoa revela algo importante sobre si mesma quando encontra alguém disposto a ouvir com atenção.

Ela procura conhecer as histórias dos alunos. Nem sempre memoriza todos os nomes imediatamente, mas guarda aquilo que faz cada estudante ser único. A aluna que escolheu a Biomedicina porque a avó tinha diabetes. O estudante que sonha trabalhar em determinada área. Aquele que chegou à universidade carregando uma experiência de vida diferente dos demais.

Essas pequenas informações se tornam pontes e, ao longo do semestre, Ana recupera essas histórias durante as aulas, conecta conteúdos aos interesses dos alunos e cria oportunidades para que eles se sintam vistos.

Mais do que transmitir conhecimento, ela constrói pertencimento. Antes de qualquer inovação, a aprendizagem continua sendo um encontro humano.

“A gente pensa muito em metodologias e técnicas, mas, na verdade, é uma relação de pessoas.”

A experiência acumulada também ampliou sua visão sobre o papel docente. Como coordenadora, Ana acompanha não apenas as dificuldades dos estudantes, mas também os desafios enfrentados pelos próprios professores. Essa posição reforçou uma convicção que ela compartilha com frequência: o professor não é alguém que entrega respostas prontas. É alguém que ajuda o estudante a encontrar caminhos. 

“Ele é um guia.  E eu acho que o professor, de fato, tem essa posição. A gente não trabalha em larga escala, a gente não está em uma fábrica.”

Guiar não significa determinar todos os passos. Significa caminhar ao lado, oferecer direção quando necessário e permitir que cada estudante construa sua própria trajetória. Nem todos aprendem da mesma forma. Nem todos precisam percorrer exatamente o mesmo percurso. E talvez uma das maiores maturidades da docência seja justamente aceitar isso.

Ao final da conversa, faço a pergunta que sempre encerra o Docência no Divã: O que é ser professor? Ana responde sem hesitar. “É realização.”

Em um tempo de mudanças aceleradas, novas tecnologias e incertezas sobre o futuro da educação, a professora Ana nos lembra que aquilo que realmente marca a trajetória de um estudante continua sendo o mesmo: sentir-se reconhecido, acolhido e acompanhado por alguém que acredita no seu potencial. Porque, no fim das contas, ensinar continua sendo um encontro entre pessoas.