
Karina Nones Tomelin conversa com o professor Pedro Henrique Marangoni.
Por Karina Nones Tomelin
Cheguei a Umuarama para conhecer o professor Pedro Henrique Marangoni sem imaginar que encontraria alguém que escolheu inverter a ordem mais comum das apresentações profissionais. Enquanto muitos dizem com orgulho “sou advogado e professor”, Pedro faz questão de corrigir: “Eu sou professor e advogado. A docência vem em primeiro lugar na minha vida”. Seu entusiasmo e paixão pela educação transbordavam não só pelo seu olhar, mas pela vibração com que me contou sobre sua trajetória docente.
A frase, dita logo nos primeiros minutos da nossa conversa, revelou não só alguém que se apaixonou pela docência, mas que de fato a vive intensamente e sem hora para terminar. Sua história com a educação começou antes mesmo da conclusão da graduação em Direito. Ainda no quinto ano do curso, quando muitos colegas estavam preocupados apenas com o exame da OAB ou com os primeiros escritórios, Pedro já dava aulas em cursinhos preparatórios para concursos públicos. Assim que concluiu a graduação, iniciou o mestrado e, simultaneamente, ingressou na docência universitária. Hoje, soma sete anos como professor, cinco deles na Unipar.
Sua juventude, entretanto, nunca foi tratada por ele como uma limitação. Pelo contrário. Para ele, tornou-se uma vantagem pedagógica. Por ter concluído recentemente o doutorado, Pedro continua frequentando salas de aula como estudante e acredita que essa condição o ajuda a compreender melhor as expectativas de quem está do outro lado da carteira.
“Eu me esforço de fato para me colocar na posição de discente. Imagino o que eu gostaria como aluno e tento transferir isso para os meus estudantes.”
Antes de pensar em metodologias, tecnologias ou estratégias de ensino, Pedro parte de uma pergunta simples, mas cada vez mais rara entre nós: como eu gostaria de aprender se estivesse sentado ali? Como é ser aluno na minha própria sala de aula? E esta inquietação é fundamental para repensar as práticas e tornar o ensino e a aprendizagem motivadores.
A aula precisa vencer o celular
Comecei provocando o professor Pedro a falar sobre o problema das telas na sala de aula. Esta é uma dor que mobiliza muitos professores e seu debate tem se ampliado para universidades de todo o mundo. Algumas universidades brasileiras já optaram por restringir o uso dos celulares, seguindo o exemplo das práticas adotadas pela educação básica.
Pedro não faz parte do grupo de professores que acreditam que o problema da distração será resolvido proibindo celulares. Ele prefere seguir um caminho menos proibitivo e mais desafiador: competir pela atenção dos estudantes e a favor da aprendizagem. Sua posição nasce de outro lugar: do respeito à autonomia do estudante universitário. “Há um primeiro momento em que eu acredito no respeito acadêmico e na liberdade do acadêmico”, afirma. Para ele, o celular não é um inimigo a ser retirado da sala, mas um concorrente legítimo pela atenção dos alunos. E, diante dessa disputa, sua escolha é clara: “Eu me proponho a vencer essa competição com uma aula que vence a competição com o celular.”
A afirmação chama atenção justamente porque desloca o foco da discussão. Em vez de responsabilizar exclusivamente a tecnologia pela dispersão dos estudantes, ele volta o olhar para o próprio fazer docente. A pergunta deixa de ser “como tirar o celular da mão do aluno?” para tornar-se “como construir uma aula da qual o aluno não queira se desconectar?”.
Essa mudança de perspectiva revela muito sobre sua forma de compreender a docência. Para Pedro, a tecnologia faz parte da vida dos estudantes e dificilmente desaparecerá das salas de aula. O desafio, portanto, não é disputar força com as telas por meio da proibição, mas criar experiências suficientemente significativas para que o estudante escolha participar. Essa escolha, segundo ele, passa por três elementos: uma linguagem acessível, metodologias ativas e, principalmente, pela capacidade de mostrar sentido ao conhecimento.
“O aluno precisa saber por que estuda aquilo, o quanto aquilo é importante para a vida dele e por que vale a pena deixar a tela de lado para viver aquela experiência em sala de aula.”
Antes de pedir atenção, o professor precisa oferecer propósito. O estudante contemporâneo dificilmente se envolve apenas porque o conteúdo está previsto na ementa. Ele precisa compreender por que aquele conhecimento merece seu tempo, sua energia e sua participação.
Coragem para experimentar
Há professores que passam anos aperfeiçoando uma mesma aula. Outros preferem começar novamente a cada semestre. Pedro parece pertencer ao segundo grupo. Ele admite, com naturalidade, que boa parte das suas ideias nasce da tentativa.
“Eu faço testes. Testes que às vezes funcionam, testes que às vezes não funcionam. Mas quando um teste funciona, é muito gratificante.”
A frase revela uma competência cada vez mais necessária na docência contemporânea: aceitar que inovar implica correr riscos e estar aberto a eles. Durante muitos anos, a cultura universitária foi marcada pela expectativa de que o professor deveria dominar completamente o conteúdo e ser hábil em oratória, antes mesmo de entrar em sala de aula. Experimentar podia ser confundido com improvisação. Errar, muitas vezes, era visto como sinal de despreparo.
Pedro rompe com essa lógica. Para ele, experimentar é parte do próprio processo de ensinar. Essa disposição para testar novas possibilidades surge de múltiplas maneiras e algumas até curiosas, como a inspiração para um jogo em sala de aula. Em uma confraternização entre amigos, observava um grupo jogar “Imagem & Ação”. Enquanto todos se divertiam tentando adivinhar palavras por meio de mímicas, uma pergunta apareceu quase automaticamente: será que isso funciona na sala de aula?
Dias depois, o jogo havia sido completamente adaptado para o ensino jurídico. Agora, em vez de personagens ou objetos, os estudantes precisam representar teorias complexas do Direito utilizando apenas o corpo e a criatividade.
À primeira vista, pode parecer apenas uma brincadeira. Mas a atividade mobiliza competências complexas. Quem faz a mímica precisa dominar profundamente o conteúdo para conseguir traduzi-lo em gestos. Quem observa precisa recuperar conceitos aprendidos anteriormente para interpretar as pistas. A aprendizagem deixa de ser apenas memorização e transforma-se em elaboração coletiva do conhecimento.
Os estudantes de Direito precisam argumentar, falar em público, negociar ideias, interpretar pessoas e lidar com situações de exposição. Todas essas habilidades são exigidas na profissão, mas nem sempre encontram espaço nas metodologias tradicionais de ensino. Ao incorporar elementos da gamificação, ele não ensina apenas Direito. Ensina futuros advogados a se comunicarem melhor.
Muito além do Direito
Ao longo da nossa conversa, Pedro falou sobre criatividade, metodologias ativas, jogos jurídicos e coragem para experimentar. Mas, curiosamente, quando pergunto o que significa ser professor, sua resposta não passa pela inovação nem pela tecnologia. Passa pelas pessoas.
“O professor, em determinado momento da vida do acadêmico, é um referencial. É aquela pessoa que ele gosta de citar em outros momentos da vida.”
Talvez por isso ele tenha se entusiasmado ao me contar que foi escolhido como professor homenageado da turma e, durante o discurso de formatura, a oradora fez questão de recordar seus jogos jurídicos e as aulas leves, descontraídas e participativas que marcaram a trajetória daqueles futuros profissionais.
“Ela citou os meus jogos, o quanto deixavam as aulas descontraídas, o quanto as aulas ficavam leves.”
Os alunos não se lembraram apenas do conteúdo aprendido. Lembraram da experiência de aprender.
“O conhecimento nós encontramos até mesmo numa inteligência artificial. Mas uma pessoa humana, uma pessoa que muda a vida das outras pessoas, a sabedoria, a capacidade de lidar com o outro… só o ser humano é capaz.”
Entre metodologias ativas, jogos jurídicos e uma profunda capacidade de se colocar no lugar do estudante, o professor Pedro Henrique Marangoni mostra que inovar na educação não significa transformar a sala de aula em entretenimento, mas criar experiências capazes de produzir aprendizagem significativa. Nesta edição do Docência no Divã, conhecemos a trajetória de um jovem professor da Unipar que encontrou na flexibilidade, na criatividade e na coragem de experimentar um caminho para formar profissionais mais preparados e mais humanos.








