Karina Nones Tomelin entrevista a professora Gisele Baumgarten

Por Karina Nones Tomelin

Em Joinville, Santa Catarina, conheci a professora Gisele Baumgarten para mais um encontro do quadro Docência no Divã. Logo no início da conversa, ela brinca sobre seus quase vinte anos de carreira docente: “Acho que depois de certo tempo de docência, o divã passa a ser recomendado”.

A frase, dita em tom leve, revela algo especial sobre o ofício de ensinar: a docência é um exercício permanente de reflexão sobre si mesmo. Entre experiências, dúvidas e reinvenções, Gisele construiu uma trajetória marcada pela curiosidade, pela coragem de experimentar e pela disposição de aprender junto com seus estudantes.

Formada em Publicidade e Propaganda e também em Processos Gerenciais, com pós-graduações em Marketing e Gestão Estratégica e mestrado em Design, ela mesma se descreve como alguém “multidisciplinar”. Sua história na educação, porém, começou muito antes da universidade.

“Eu era aquela criança que brincava de escolinha”, lembra Gisele, com um sorriso que mistura memória e reconhecimento. Desde muito cedo, o gesto de ensinar já fazia parte do seu modo de estar no mundo. Organizar ideias, explicar conteúdos, criar pequenas situações de aprendizagem nas brincadeiras não era apenas um passatempo, mas um indício de algo mais profundo, que ainda levaria anos para se tornar escolha consciente.

A vida, no entanto, seguiu outros caminhos em um primeiro momento. Gisele iniciou sua trajetória profissional na área de marketing, mergulhando no universo corporativo e construindo ali suas primeiras experiências. Ainda assim, algo permanecia em aberto. Sempre muito conectada ao estudo, à leitura e à busca constante por conhecimento, ela começou a perceber que aquele ambiente não contemplava totalmente sua forma de se relacionar com o saber. Havia uma inquietação silenciosa, uma sensação de que todo aquele repertório acumulado não encontrava espaço pleno de expressão.

Foi nesse movimento de escuta interna que a docência reapareceu, não como uma ideia distante, mas como possibilidade concreta. “Eu pensei: talvez na sala de aula eu consiga usar tudo aquilo que gosto de estudar”, conta. A decisão veio acompanhada de curiosidade e de um certo impulso de experimentar algo que, no fundo, sempre esteve ali.

Foi assim que começou sua jornada na docência. E, quase duas décadas depois, Gisele segue falando da profissão com o mesmo entusiasmo de quem ainda se reconhece naquele impulso inicial de aprender e compartilhar.

Aprender a ensinar

Um dos grandes desafios da docência universitária está justamente no fato de que, na maioria das vezes, o professor não é formado para ensinar. Ele chega à sala de aula com domínio técnico, repertório acadêmico e experiência profissional, mas sem, necessariamente, ter desenvolvido as competências pedagógicas que sustentam o processo de aprendizagem. Saber muito sobre um conteúdo não garante que ele será compreendido pelo outro. E foi exatamente nesse ponto que Gisele se viu, logo no início da sua trajetória.

Sua primeira experiência em sala de aula já trouxe um choque de realidade. Diante dela estava uma turma de publicidade formada por estudantes com diferentes perfis, entre eles profissionais experientes, donos de agência, pessoas com trajetória consolidada no mercado e, em muitos casos, mais velhas do que a própria professora. A relação tradicional entre quem ensina e quem aprende parecia, ali, deslocada. Não havia espaço para uma postura rígida, nem para a simples transmissão de conteúdo.

Foi nesse contexto que ela percebeu que repetir o modelo de aula expositiva que conhecia não seria suficiente. Era preciso encontrar outras formas de se colocar diante da turma, outras maneiras de construir sentido junto com aqueles estudantes. A ausência de uma formação pedagógica mais consistente, longe de paralisá-la, tornou-se um ponto de partida para a busca.

Gisele passou, então, a investir intencionalmente na própria formação docente. Buscou disciplinas isoladas sobre metodologia do ensino superior, participou de oficinas pedagógicas oferecidas pela instituição e, sobretudo, desenvolveu um olhar atento para outras práticas de ensino. Observava colegas, experimentava abordagens diferentes, testava caminhos. Esse movimento, feito de tentativa, escuta e ajuste, foi moldando sua identidade como professora.

Hoje, ao olhar para trás, ela reconhece que esse percurso foi fundamental para construir uma docência que ultrapassa a dimensão técnica e se aproxima de uma experiência mais sensível e relacional. Ensinar, para ela, deixou de ser apenas organizar conteúdos e passou a significar pensar, com intencionalidade, em como o conhecimento encontra o estudante.

“Eu percebi muito cedo que não adiantava eu saber muito sobre o conteúdo se aquilo não chegasse ao aluno. Porque cada turma é diferente, cada pessoa aprende de um jeito, e eu não podia simplesmente repetir o modelo que eu tinha vivido como aluna. Ser professora, para mim, passou a ser muito mais sobre pensar como esse conhecimento vai fazer sentido para quem está ali do que sobre o quanto eu sei.”

Essa compreensão, construída ainda nos primeiros anos de docência, tornou-se um eixo central da sua prática e segue orientando, até hoje, a forma como ela entra em sala de aula.

Quando a aula escapa das mãos

Entre tantas experiências vividas ao longo da sua trajetória, há uma que Gisele relembra como um verdadeiro ponto de virada na sua forma de ensinar. Não foi uma aula planejada para ser memorável, mas acabou se tornando daquelas que marcam o professor e o obrigam a repensar o próprio fazer docente.

Inspirada em uma disciplina que cursava como aluna ouvinte no mestrado, ela decidiu propor algo ousado: estruturar um semestre inteiro com base no design thinking. A proposta reunia cerca de 70 estudantes de publicidade e jornalismo em um projeto transdisciplinar, no qual o ponto de partida não seria um conteúdo previamente definido, mas os próprios problemas trazidos pelos alunos. A ideia parecia simples, mas carregava uma complexidade enorme. Abrir mão de conduzir o tema significava, de certa forma, abrir mão do controle.

Os estudantes foram convidados a olhar para a própria realidade e identificar questões que os inquietavam. Aos poucos, os temas começaram a surgir, e com eles, histórias profundamente humanas. Grupos se debruçaram sobre a população em situação de rua, outros trouxeram relatos ligados ao HIV, à invisibilidade social, a experiências de exclusão e dor que permanecem muitas vezes à margem das discussões acadêmicas. A proposta exigia mais do que pesquisa. Exigia presença. Os alunos foram a campo, conversaram com pessoas, ouviram histórias, se deixaram afetar.

Quando voltaram para a sala de aula para compartilhar o que haviam vivido, algo inesperado aconteceu. A aula deixou de ser apenas um espaço de exposição de trabalhos e se transformou em um espaço de encontro. Emoções vieram à tona, relatos ganharam peso, e a sala foi tomada por silêncio e por lágrimas sensíveis.

“Eu lembro que, naquele dia, todo mundo chorava. Não era uma emoção leve, era uma coisa profunda, de contato com a realidade mesmo. E eu fui para casa completamente mexida, pensando ‘o que eu fiz? Como é que eu vou dar conta disso na próxima aula?’. Porque, naquele momento, eu percebi que a aula tinha saído do lugar que eu conhecia e ido para um território que eu não controlava mais.”

A semana seguinte foi marcada por inquietação. Havia um receio legítimo de não conseguir sustentar pedagogicamente aquela experiência. Ainda assim, Gisele decidiu continuar. Seguiu com o projeto, confiando no processo, mesmo sem ter todas as respostas.

O desfecho trouxe resultados que extrapolaram a sala de aula. Alguns trabalhos se transformaram em pesquisas, outros foram apresentados em congressos e um deles chegou a ser premiado em um evento nacional da área. Mas, para além dos reconhecimentos formais, o que ficou foi a compreensão de que havia ali algo mais potente acontecendo.

Foi nesse momento que ela se deu conta, de forma concreta, do impacto das metodologias ativas no aprendizado. Não como conceito teórico, mas como experiência vivida.

“Ali eu entendi, de verdade, que quando o aluno se envolve emocionalmente, ele aprende de um jeito completamente diferente. Não é mais sobre decorar conteúdo, é sobre viver aquilo. E quando ele vive, ele não esquece.”

Essa experiência também trouxe uma outra aprendizagem, talvez ainda mais desafiadora. Trabalhar com metodologias ativas implica aceitar um certo grau de imprevisibilidade. Diferentemente da aula expositiva, em que o professor conduz cada etapa, aqui o caminho se constrói no encontro, nas perguntas, nas respostas que nem sempre existem de antemão.

E perder o controle, nesse contexto, não é um problema, mas uma condição. Significa admitir que o professor não precisa ter todas as respostas, que o conhecimento pode ser construído coletivamente e que há potência nesse espaço de incerteza. Para muitos docentes, essa é uma das maiores barreiras, pois exige vulnerabilidade, escuta e disposição para aprender junto.

Para Gisele, no entanto, foi justamente essa mudança de posição que transformou o engajamento dos estudantes. Quando o professor deixa de ocupar apenas o lugar de quem transmite e passa a ocupar o lugar de quem investiga junto, algo se desloca na dinâmica da sala de aula. E é nesse deslocamento que o aprendizado ganha força e sentido.

Criação para sala de aula: o professor designer de produtos pedagógicos

Ao longo dos anos, Gisele foi consolidando uma marca muito própria na sua forma de ensinar, algo que nasce da experimentação, mas que se sustenta na intencionalidade pedagógica. Entre essas construções, a gamificação ocupa um lugar especial. Não como tendência ou recurso pontual, mas como estratégia pensada para mobilizar o estudante de maneira mais profunda.

Para ela, gamificar não se resume a inserir ferramentas digitais ou propor dinâmicas rápidas. Há uma compreensão mais complexa por trás disso, que envolve a construção de narrativas, o engajamento por meio de desafios e a presença de recompensas simbólicas que façam sentido dentro do processo de aprendizagem. Foi a partir dessa visão que começou a criar seus próprios materiais, adaptando jogos, reinventando formatos e desenvolvendo experiências que dialogassem com os conteúdos das suas disciplinas.

Esse movimento exigiu tempo, energia e, muitas vezes, uma dedicação que extrapolava o esperado. Criar um jogo pedagógico completo não é uma tarefa simples, e em alguns momentos a própria professora se questionava sobre o caminho que estava seguindo. Ainda assim, persistiu. Com o tempo, esses materiais passaram a compor seu repertório docente, sendo reutilizados, aprimorados e ressignificados a cada nova turma.

“Gamificação, para mim, nunca foi só jogar um quiz ou usar uma ferramenta pronta. Eu sempre pensei em criar uma experiência mesmo, com começo, meio e fim, com uma história que envolvesse o aluno. Teve um jogo que eu fiz sobre cultura organizacional que me deu um trabalho enorme, eu fiquei dias montando aquilo e pensando ‘o que eu estou fazendo da minha vida?’. Mas hoje eu vejo o resultado. O aluno lembra. Às vezes, dois ou três semestres depois, ele volta e diz que nunca esqueceu aquele conteúdo. E aí eu entendo que fez sentido.”

Para além da sala de aula, Gisele também atua em projetos que articulam ensino, pesquisa e extensão, tendo como referência os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Esses objetivos funcionam como um eixo orientador para a construção de projetos interdisciplinares, trabalhos acadêmicos e ações que dialogam com a comunidade.

Mais do que cumprir um papel institucional, essa escolha revela uma compreensão ampliada do que significa formar um estudante no ensino superior. Não se trata apenas de desenvolver competências técnicas, mas de contribuir para a formação de sujeitos capazes de compreender seu papel no mundo.

“Eu não consigo pensar a universidade só como um lugar de ensinar técnica. A gente está formando pessoas, formando cidadãos. Então, quando eu trago os ODS para os projetos, não é só para cumprir um requisito, é para fazer o aluno refletir sobre o impacto do que ele faz, sobre o lugar dele na sociedade.”

Essa preocupação com o sentido da formação também aparece quando ela fala com outros professores. Ao ser questionada sobre por onde começar quando se deseja inovar na prática docente, Gisele não apresenta um roteiro fechado, mas aponta caminhos possíveis que passam, sobretudo, pela abertura ao novo e pela disposição para aprender continuamente.

Ela fala da importância de estudar, de buscar referências, de conversar com colegas e de observar outras áreas do conhecimento. Mas, acima de tudo, destaca a escuta como elemento central.

“Às vezes, o melhor caminho para uma aula não está no que eu planejei, mas no que o aluno traz. Um problema que ele vive no trabalho, uma dúvida que aparece ali na hora, isso pode virar o melhor gancho. E a gente precisa estar disponível para isso. Nem sempre eles querem uma aula diferente, às vezes estão cansados, querem só assistir. Mas é como academia, a gente nunca quer ir, mas depois que vai, vê que valeu a pena.”

Essa disponibilidade para escutar, adaptar e reinventar também está presente na forma como Gisele compreende o próprio papel como professora. Ao final da conversa, ao ser convidada a definir o que é ser docente, ela não hesita, mas também não responde de forma automática. Há uma pausa, como quem reconhece o peso da pergunta.“Para mim, é minha vida.”

A resposta, embora simples, carrega a densidade de quem construiu uma trajetória marcada pelo envolvimento profundo com a profissão. Para ela, o professor ocupa um lugar de influência que vai além do conteúdo, impactando escolhas, posturas e modos de ver o mundo.

Talvez seja essa compreensão que sustente a permanência de tantos professores na docência, mesmo diante dos desafios. Ensinar, afinal, não é apenas transmitir conhecimento, mas se implicar em um processo que é, ao mesmo tempo, técnico, humano e profundamente relacional. É aceitar que nem tudo será previsível, que o planejamento nem sempre dará conta de tudo e que, muitas vezes, é justamente quando a aula escapa das mãos que o aprendizado encontra espaço para acontecer.

Gratidão à professora Gisele por uma conversa tão inspiradora!