Ana Valéria Reis (Consultora educacional em Formação e Desenvolvimento de Docentes para a Inovação e a Aprendizagem Ativa)

Ana Valéria Reis, consultora educacional em Formação e Desenvolvimento de Docentes para a Inovação e a Aprendizagem Ativa, detalha as cinco tendências para a formação de professores, apontadas no documento “Tendências do Ensino Superior”, lançado no início de fevereiro pelo Consórcio STHEM, o Semesp e com apoio da Revista Ensino Superior.

“As cinco tendências foram selecionadas a partir de um olhar crítico sobre as rápidas transformações do ensino superior e das novas exigências para a atuação docente. O processo considerou desafios emergentes, como o impacto da tecnologia, a necessidade de promover bem-estar e o fortalecimento de abordagens pedagógicas inovadoras. Além disso, excelentes especialistas da área educacional contribuíram com reflexões sobre competências essenciais para o futuro da docência, buscando um equilíbrio entre inovação tecnológica, humanização do ensino e compromisso com a formação integral dos estudantes”.

A primeira tendência, ‘integração avançada de IA e tecnologias educacionais’, segundo Ana Valéria, “mostrou que a IA tem um papel fundamental na potencialização das práticas pedagógicas, pois permite personalizar o ensino, automatizar tarefas repetitivas e oferecer feedback imediato. Para os professores, isso significa mais tempo para focar em atividades estratégicas, no acompanhamento individual dos alunos e no desenvolvimento de abordagens inovadoras. Além disso, a IA pode apoiar a formação docente ao fornecer insights baseados em dados, ajudando na adaptação de conteúdos e metodologias conforme as necessidades específicas de cada turma”.

No entanto, a consultora educacional chama a atenção para um risco sobre a IA. “ela não pode ser vista como uma solução milagrosa, sem que haja um debate profundo sobre seus limites e implicações. Pois, afinal, quem controla os algoritmos? Como garantir que a IA não reforce vieses já existentes na educação? Além disso, há a preocupação de que, em vez de ampliar o papel dos professores, a IA acabe por reduzi-los a meros facilitadores, sem autonomia sobre os processos de ensino”.

Ana Valéria Reis destacou também a importância das tecnologias educacionais para os educadores e os estudantes. “As tecnologias educacionais proporcionam novas formas de planejamento, avaliação e interação dos docentes com os estudantes, tornando o processo de ensino mais dinâmico e eficiente. Para os alunos, essas ferramentas possibilitam um aprendizado mais personalizado, colaborativo e acessível, favorecendo a autonomia e o engajamento. Além disso, plataformas adaptativas, gamificação e simulações virtuais criam experiências de aprendizagem mais significativas e alinhadas às demandas do mundo contemporâneo”.

Entretanto, a consultora educacional alertou sobre o critério que deve haver para adoção das tecnologias. “A simples adoção de plataformas digitais não garante uma aprendizagem mais eficaz. O desafio está na formação docente para um uso crítico e pedagógico dessas ferramentas. Além disso, há o risco da dependência excessiva de tecnologia, tornando o aprendizado superficial e fragmentado, sem o desenvolvimento de habilidades mais profundas, como pensamento crítico e análise reflexiva”.

Ana Valéria enfatizou na segunda tendência, do ‘desenvolvimento humano e bem-estar no ambiente educacional’, que “os professores devem criar um ambiente de aprendizagem que valorize o diálogo, a escuta ativa e o respeito mútuo. Estratégias como rodas de conversa, metodologias colaborativas e atividades reflexivas podem fortalecer o desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos alunos. Além disso, promover uma cultura de apoio entre docentes, com momentos de troca de experiências e formação continuada em inteligência emocional, é fundamental para que o ambiente institucional também favoreça o bem-estar e a empatia”.

Todavia a consultora educacional afirma que existe um dilema e questiona a responsabilidade sobre o bem-estar dos alunos: “o quanto a escola ou a universidade pode assumir essa função sem apoio de políticas públicas mais amplas? O professor deve ser um mediador das relações interpessoais, mas não pode ser o único responsável pelo bem-estar dos alunos. Muitas vezes, docentes trabalham em condições precárias, sobrecarregados e sem suporte emocional. Como esperar que promovam empatia e acolhimento se não recebem esse mesmo tratamento no ambiente de trabalho?”.

Na terceira tendência, sobre ‘metodologias ativas e transdisciplinaridade’, Ana Valéria Reis enfatiza que “os docentes podem e devem utilizar metodologias ativas como aprendizagem baseada em projetos (ABP), aprendizagem baseada em problemas (PBL), gamificação, sala de aula invertida, estudos de caso entre tantas outras desde que essas abordagens incentivem a participação ativa dos alunos tanto individual como colaborativamente, estimulem a resolução de problemas reais e desenvolvam competências como pensamento crítico, colaboração e criatividade. O importante é que essas metodologias sejam bem estruturadas para garantir que os alunos realmente assumam o protagonismo em seu processo de aprendizagem”.

A quarta tendência, ‘personalização da formação docente’, a consultora educacional diz que “permite que os professores desenvolvam competências alinhadas às suas necessidades individuais e aos objetivos institucionais. Esse processo pode ser feito por meio de trilhas formativas flexíveis, mentorias, redes de aprendizagem colaborativa e o uso de tecnologias adaptativas. Ao oferecer caminhos personalizados, respeitando o ritmo e as demandas de cada docente, as instituições garantem maior engajamento e aplicabilidade das novas práticas pedagógicas.

Mas, segundo Ana Valéria Reis, “há um desafio estrutural. As instituições de ensino estão dispostas a investir nessa personalização? Muitos programas de capacitação ainda seguem um formato padronizado, desconsiderando as especificidades dos docentes e seus contextos. Além disso, a formação continuada não pode ser tratada como uma responsabilidade individual do professor, mas sim como uma estratégia institucional que ofereça suporte e incentivos reais”.

Sobre a quinta e última tendência, ‘educação para a cidadania planetária e sustentabilidade’, Ana Valéria Reis, acrescenta que “é necessário investir em formação continuada que contemple temas como letramento ambiental, ética global e desenvolvimento sustentável. Além disso, os professores devem ser incentivados a integrar práticas interdisciplinares que conectem conteúdos acadêmicos a desafios reais, promovendo o engajamento dos alunos em ações concretas voltadas para a sustentabilidade. Parcerias com ONGs, projetos de impacto social e atividades de extensão universitária são caminhos para consolidar essa abordagem. A educação para a cidadania planetária e a sustentabilidade não pode ser um tema isolado dentro do currículo, mas sim uma abordagem transversal, presente em diferentes disciplinas e práticas acadêmicas”.

Por fim, Ana Valéria Reis deixam no ar um questionamento: “as IES realmente incorporam essa visão em suas diretrizes ou apenas fazem ações pontuais? Muitas vezes, o discurso sobre sustentabilidade não se reflete na prática institucional, e os professores não recebem formação adequada para trabalhar esses temas de maneira consistente e conectada com a realidade dos alunos”.

Para as tendências de 2026, Ana Valéria Reis pergunta: “o que foi efetivamente implementado das tendências de 2025 e das anteriores? Antes de discutir novos temas, é fundamental avaliar se as mudanças sugeridas foram aplicadas de fato ou se ficaram apenas no nível da teoria”.

Dentre os temas que emergem para o ano que vem, Ana Valéria Reis, lista os seguintes:

  • Automação versus Humanização no Ensino
  • Acesso e equidade digital
  • Ética e regulação da IA na educação
  • Saúde mental docente
  • Impacto real das metodologias ativas
  • Sustentabilidade como eixo transversal da formação docente
  • Conexão entre educação e mercado de trabalho sustentável

E finaliza: “Precisamos ir além do entusiasmo com a inovação e abordar os desafios estruturais do ensino superior. A relação entre tecnologia, sustentabilidade e mercado de trabalho não pode ser tratada de forma fragmentada. Será essencial construir modelos educacionais mais integrados, que não apenas formem profissionais capacitados tecnicamente, mas cidadãos conscientes e críticos, capazes de atuar em um mundo complexo, interconectado e em constante transformação”.