No período da tarde, o painel 3 girou em torno do tema “Como uma universidade pode se reinventar: inovar sem perder a essência”, em que o vice-reitor da PUC-PR, Vidal Martins, respondeu a perguntas como: “por que mudar e como mudar? e nessa mudança, o que fica e o que muda?”, para defender a reinvenção das instituições de ensino superior.
Segundo ele, sim, as IES precisam se reinventar porque a convergência de diferentes tecnologias tem impactado o ensino superior. “Isso porque essas mudanças requerem novos comportamentos de consumo e estratégias que afetam de forma profunda a sociedade e a economia. As IES preparam as pessoas para o mundo e o mercado de trabalho, daí a urgência em mudarmos. E as IES devem mudar não apenas porque formam profissionais, mas porque elas próprias são empresas inseridas em um mercado em constante transformação”, defendeu.
Em seguida, Vidal apresentou uma série de questões que contextualizam essas mudanças, como uma alteração da dinâmica dos diplomas com o surgimento das microcredenciais e da necessidade que os profissionais se insiram mais rapidamente no mercado. “Essa nova dinâmica demanda o aprendizado de competências e habilidades, já que há uma grande disponibilidade de informações, o que obriga as IES a oferecerem novos aprendizados, não apenas conteúdos”, decretou.
“Outra questão importante é que os processos de ensino e aprendizagem precisam levar em conta uma nova dinâmica também de trabalho, com maior concorrência internacional em virtude do trabalho remoto, e a necessidade de profissionais multidisciplinares para a busca de soluções para problemas mais complexos”, disse lembrando ainda de pontos como aprendizagem mais personalizada e educação ao longo da vida.
Usando o exemplo da própria PUC-PR, Vidal Martins apontou que a IES vem passando por um processo de transformação nos últimos três anos com o objetivo de se tornar uma instituição mais inovadora e ágil. “Para isso, definimos cinco princípios que tem nos guiado, como a fidelidade à nossa missão, adaptabilidade, centralidade do cliente, liberdade com responsabilidade e governança horizontalizada”, listou.
Ele apontou também pontos importantes que para a IES escolha o que precisa ser transformado e o que é a essência da instituição e precisa permanecer. “Nesse processo de transformação, mantemos nossa missão, valores, competências identitárias e princípios orientadores da atividade acadêmica”, explicou. “Em relação às mudanças, buscamos a inovação em termos de estrutura organizacional, modelos de negócio e de gestão, ecossistema de inovação, estratégia de relacionamento com o cliente, estratégia de transformação digital e agilidade”, finalizou lembrando que existe diversos caminhos para que as IES busquem a mudança.
Navegando na era híbrida: o papel do professor na universidade do amanhã

No painel 4, “Navegando na era híbrida: o papel do professor na universidade do amanhã”, o moderador e coordenador da Universidade Corporativa Semesp, Marcio Sanches, lembrou o período da pandemia dizendo: “a pandemia fez com que ensino superior queimasse etapas. Nós vivemos isso na Universidade Corporativa do Semesp quando capacitamos mais de 3 mil professores que não sabiam usar ferramentas e nem ministrar aulas on-line. Conversando com as IES nós fomos identificando que esse período trouxe grandes modificações, a aceleração dos processos de aprendizagem que, na verdade, já estava atrasado. Hoje é um desafio muito grande para nós, docentes, que lidamos com modelos presenciais, híbridos com presencial e on-line síncrono, híbridos com modelos síncronos e assíncronos on-line e como essas possibilidades podem gerar melhoria do ensino, maior acesso e maior flexibilidade”.
Mesmo lidando com tantas mudanças, Márcio Sanches, enfatizou que “as IES ainda oferecem pouca mobilidade na trajetória do aluno. O novo cenário que a tecnologia trouxe é dar ao aluno acessos de outros conteúdos de outras áreas, com novos recursos, novos processos e tudo isso demanda novas competências, habilidades e atitudes distintas de professores e alunos, além de necessidades diferenciadas para a aprendizagem”.
Em seguida, Roberto Paes de Carvalho Ramos, diretor de Ensino da Unisuam, mostrou a importância do papel do professor unindo tecnologia, aprendizagem e academia. “Eu quero trazer um aspecto sobre as metodologias ativas. Antes já se fazia sala de aula invertida, mas antes da internet e da tecnologia isso tudo estava voltado para a leitura. Basta lembrar os diálogos de Aristóteles, Platão, e outros pensadores. Com o advento da tecnologia essas metodologias evoluíram porque hoje o aluno se conecta antes, durante e depois da sala de aula. Antes não tínhamos recursos para fazer essa conexão. Essa conexão é muito importante para currículos baseados em competências. Então ensino híbrido é o professor conseguir a conexão do fora de sala para dentro de sala, mesmo que seja virtual, e mediado por tecnologia. Essa relação é orgânica e o aluno o tempo todo tem oferta de educação. E após a pandemia essa hibridização do ensino se acelerou muito e o professor precisa dar respostas para esse aluno que está conectado o tempo todo”.
O outro ponto abordado pelo educador foi o uso da Inteligência Artificial e os chatbots, como o ChatGPT, o Gemini e outras tecnologias. “Quando pensamos em conteúdos associados com a IA generativa, chegamos em um modelo 100% gratuito e com 100% de conteúdo gratuito. Ou seja, o conteúdo deixou de ser carro chefe do professor e se ele só fizer aulas expositivas, ele não vai existir mais. No ensino superior, que é mais avançado que a educação básica, o novo papel do professor é estar fora de sala e dentro de sala, e fazer o papel que a IA nunca irá fazer, que é resgatar o afeto e empatia de um aluno que não confia nas situações vividas em seu redor. A inteligência emocional é o papel do professor, que precisa oferecer, além do conteúdo, uma formação com superação de adversidades, preparando o aluno para o mercado de trabalho”.
Roberto Ramos lembrou ainda que o “o professor é o grande responsável pela política de retenção do aluno”. O desenvolvimento das soft skills foi outro ponto levantado pelo educador. “Se em sala de aula os professores não desenvolverem comunicação, trabalho em equipe e liderança em seus alunos, eles não vão se desenvolver para o mercado de trabalho. E o desenvolvimento passa por metodologias que trabalham estudos de caso, resolução de problemas, e trabalho em equipe, que são fundamentais para essa formação e que precisam estar no plano de ensino”.
Por fim, Roberto Ramos falou sobre o papel do professor como mentor e gestor da aprendizagem. “Hoje o principal papel do professor é vencer as dificuldades das tecnologias, e ser gestor da aprendizagem do aluno. O docente tem de garantir que o aluno aprenda de forma global e o aluno precisa demonstrar as competências atingidas”.
Washington Lemos, especialista em inovação curricular e Metodologias Ativas, encerrou o painel afirmando que a IA nunca vai substituir o professor.
“A IA de modo algum não substitui o professor, porque o processo de aprendizagem é essencialmente relacional, humano. O professor tem a capacidade de conversar, dialogar, exercer empatia e entender o que o aluno está fazendo com a jornada dele. A IA é treinada com dados do passado e só consegue olhar os temas do passado, além de ter limites técnicos, algoritmos e o ser humano não é como a IA, ele tem capacidade de ter suas vivências. A obrigação do professor é estar ao lado do aluno e facilitar sua aprendizagem”.
O educador disse ainda que o professor é estratégico dentro de uma instituição. “Se o aluno está insatisfeito com o processo de aprendizagem, isso cai na conta do professor. Esse papel estratégico é tão importante que o professor não pode estar sozinho, ele precisa estar alinhado com a cultura da instituição. Se esse professor sabe exatamente os valores da instituição então as mudanças precisam ser feitas e focadas na experiência do aluno. O professor do futuro é que o olha para isso, sabe usar as tecnologias e tenta trabalhar a empregabilidade do estudante”.
Transformação institucional

No último painel do evento, o presidente da Rede de Educação Continuada para a América Latina e Europa (RECLA), Jorge Blando Martinez, apresentou o painel “É preciso preparar gestores que saibam conduzir processos de transformação institucional e evitar a crise”, em que ele apresentou tendências que apontam que as universidades precisam se transformar para fortalecer o papel dos docentes e a experiência dos estudantes.
A partir do seu trabalho na Tecnológico de Monterrey, onde trabalha há mais de 30 anos, ele apresentou como a IES se transformou a partir de tendências como os usos da Inteligência Artificial e Realidade Virtual, do desenvolvimento de soft skills e do conceito de sustentabilidade.
Em relação aos usos de Inteligência Artificial e Realidade Virtual, Jorge Blando Martinez listou os seguintes aspectos: aprendizagem automatiza, adaptativa e hiperpersonalizada; análise de Big Data revolucionando a aprendizagem; educação em qualquer lugar do mundo e em tempo real; tecnologia apoiando a valorização contínua; e credenciais digitais. “É importante que as IES tenham uma estratégia de uso da IA para os processos de ensino e aprendizagem”, defendeu listando um guia de implementação dessa estratégia, com foco no uso consciente e responsável das IAs generativas.
Em relação ao desenvolvimento de competências e habilidades, Martinez afirmou que as IES devem desenvolver nos estudantes aspectos como criatividade, pensamento crítico, colaboração e capacidade de adaptação. “Para isso, as IES precisam oferecer processos de aprendizagem baseados em fatos, flexibilidade, experiências de ensino memoráveis e professores inspiradores”, citou. “Isso vai proporcionar que os estudantes adquiram conhecimento e capacidade de autogestão, inteligência social, habilidades de empreendedorismo e inovação, compromisso ético e cidadão, etc”.
Outra tendência apontada por Martinez é a sustentabilidade, com as IES promovendo iniciativas ecológicas e mudanças ambientais, responsabilidade social e desenvolvendo programas que busquem soluções para questões sociais e econômicas.









