Karina Tomelin entrevista a professora Taíse Possani, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí).

Por Karina Nones Tomelin

Em tempos de estudantes emocionalmente fragilizados, relações aceleradas e desafios cada vez mais complexos na sala de aula, a professora Taíse Possani, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), nos convida a recuperar algo essencial na educação: o interesse genuíno pelas pessoas. Com uma trajetória marcada pelo humanismo, pela escuta e pelo compromisso com a formação de futuros professores, ela mostra que acolher não significa deixar de exigir e que ensinar é, antes de tudo, acreditar na capacidade humana de transformação.

Fui convidada pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) para realizar uma palestra e, como sempre acontece quando visito uma instituição de ensino, aproveitei a oportunidade para conhecer de perto as pessoas, os espaços e as histórias que fazem a educação acontecer.

Dessa vez, meu destino foi Ijuí, uma cidade localizada a aproximadamente 403 quilômetros de Porto Alegre, na região noroeste do Rio Grande do Sul. A viagem me levou a uma universidade que me encantou logo na chegada. A Unijuí é muito bonita, cercada de verde, com um lago que compõe a paisagem e prédios bem preservados, daqueles lugares em que a arquitetura e a natureza parecem conversar. Caminhar por seus espaços transmite uma sensação agradável de cuidado, pertencimento e respeito pela história construída ali.

Mas, como sempre digo, o que mais me encanta nas universidades são as pessoas que encontro nelas. E foi nesse cenário que conheci a professora Taíse Possani, convidada para participar do nosso quadro Docência no Divã.

Taíse chegou muito feliz, radiante com a oportunidade de compartilhar sua trajetória. Havia nela uma alegria genuína por estar ali, uma disposição para conversar e uma energia acolhedora que, antes mesmo de começarmos a gravação, já anunciavam um pouco da professora que eu conheceria.

Formada em Letras, Português e Inglês, pela Universidade Federal do Rio Grande, onde também realizou seu mestrado em História da Literatura, Taíse teve experiências profissionais na Universidade Federal de Santa Maria antes de chegar à Unijuí, em 2010. Natural da região, conta que trabalhar na instituição era um sonho antigo. Hoje, com aproximadamente 18 anos de experiência na docência, sendo 16 deles na Unijuí, carrega uma convicção que perpassou toda a nossa conversa: ensinar exige conhecimento, responsabilidade e, sobretudo, um interesse verdadeiro pelo estudante.

“Eu levo muito comigo o interesse verdadeiro pelo aluno, independente do que ele for apresentar para nós.”

Foi justamente essa expressão que mais me chamou a atenção durante a entrevista.

Quando o estudante precisa ser visto antes de ser cobrado

Ao perguntar sobre os maiores desafios que percebe atualmente no ensino superior, Taíse não começou falando sobre tecnologia, desinteresse ou dificuldades de aprendizagem. Sua primeira preocupação foi com a saúde mental dos estudantes.

“Um dos grandes desafios que tem se posto diariamente é a questão da saúde mental dos nossos estudantes.”

Ela relata perceber, especialmente nos últimos anos, um aumento das manifestações de ansiedade, do cansaço, da fragilidade emocional e das dificuldades que muitos jovens enfrentam para lidar com situações cotidianas. São estudantes que chegam às aulas trazendo histórias, preocupações e sofrimentos que nem sempre aparecem nas avaliações ou nos indicadores acadêmicos, mas que interferem profundamente na aprendizagem.

Diante desse cenário, perguntei o que um professor universitário pode fazer. Afinal, estamos falando de jovens adultos, de um ambiente acadêmico que exige autonomia, responsabilidade e desempenho. Até onde vai o papel do professor? A resposta de Taíse veio com naturalidade.

“Eu opto sempre pelo acolhimento e por tentar mostrar para os jovens o potencial que eles têm.”

Ela conta que sua primeira atitude é abrir espaço para o diálogo. Perguntar o que está acontecendo, demonstrar disponibilidade para ouvir e respeitar quando o estudante não deseja compartilhar suas dificuldades. Quando percebe a necessidade de um acompanhamento especializado, procura encaminhá-lo aos setores de apoio estudantil da universidade.

Sua postura indica que acolher não significa assumir sozinho todos os problemas do estudante, tampouco transformar o professor em terapeuta. Significa reconhecer que existe uma pessoa antes de existir uma dificuldade acadêmica.

Taíse procura observar os alunos individualmente, mesmo nas turmas maiores. Quer saber quem são, quais histórias carregam e quais potencialidades talvez ainda não consigam reconhecer em si mesmos.

Lembrou de um estudante que a procurou em um momento de fragilidade. Ao perceber seu estado emocional, buscou ajudá-lo a reconhecer suas próprias qualidades, sua inteligência e suas possibilidades de seguir adiante.

“Vamos lá, vamos encontrar o caminho, o que pode te ajudar?”

A simplicidade dessa pergunta me fez pensar sobre quantas vezes, na rotina acelerada da universidade, buscamos respostas para os problemas dos estudantes sem antes perguntar como podemos ajudá-los a encontrar seus próprios caminhos.

Há uma diferença importante entre resolver o problema pelo aluno e ajudá-lo a perceber que é capaz de enfrentá-lo.

Acolher não significa deixar de exigir

Um dos aspectos que mais gostei na conversa com Thaíse foi perceber que seu olhar humanista não está associado à permissividade. Ela é enfática ao explicar que o acolhimento não elimina a necessidade de estabelecer limites, fazer cobranças e exigir responsabilidade.

A professora conta que costuma ser rigorosa com seus estudantes, especialmente porque atua na formação de futuros professores. Sabe que cada exigência feita hoje poderá repercutir na qualidade da educação que esses profissionais oferecerão amanhã.

Isso me parece especialmente relevante em um momento em que muitos docentes se sentem divididos entre acolher as fragilidades emocionais dos alunos e manter o rigor acadêmico.

Taíse nos mostra que não precisamos escolher entre uma coisa e outra. É possível ser sensível sem abrir mão da qualidade. É possível compreender as dificuldades de um estudante e, ao mesmo tempo, responsabilizá-lo por seu processo de aprendizagem. É possível oferecer uma palavra de incentivo e também apontar, com firmeza, aquilo que precisa melhorar.

Ela percebe que muitos estudantes chegam à universidade com dificuldade para lidar com frustrações e pequenos obstáculos. Uma atividade que não conseguem entregar, um problema de acesso a uma plataforma ou uma situação inesperada podem desencadear reações intensas de ansiedade.

Nesses momentos, a maturidade do professor pode ajudar o estudante a reorganizar sua percepção da situação. Às vezes, como ela mesma explica, basta uma palavra de tranquilidade, seguida de uma pergunta simples: qual é a solução possível?

Essa postura não diminui a autonomia dos estudantes. Ao contrário, ajuda a construí-la. O professor humanista não é aquele que facilita tudo, mas aquele que acredita que o estudante pode crescer, aprender, amadurecer e superar suas próprias dificuldades.

Em determinado momento da nossa conversa, fiquei curiosa para compreender de onde vinha essa postura humanista. Perguntei se ela havia desenvolvido essa característica ao longo da profissão ou se já fazia parte de sua personalidade.

Taíse sorriu e contou que sempre foi muito interessada nas pessoas, comunicativa, paciente e conciliadora. Na época da universidade, os próprios colegas a reconheciam como alguém diplomática, frequentemente escolhida para mediar situações que exigiam diálogo.

Mas sua visão também foi sendo alimentada por suas leituras, pela literatura e por um compromisso profundo com a justiça social. Ao falar sobre o que significa ser um professor humanizador, trouxe uma reflexão que considero central para todos nós.

“O professor humanista ou humanizador é aquele que acredita, acima de tudo, que o ser humano pode se transformar.”

Quando deixamos de acreditar na possibilidade de transformação do outro, algo essencial se perde na relação pedagógica. O estudante indisciplinado passa a ser apenas um problema. O aluno desinteressado se torna alguém que não quer aprender. Aquele que apresenta dificuldades passa a ser definido por suas limitações.

Taíse nos convida a fazer outro movimento: olhar para além do comportamento e tentar compreender a pessoa. Ela lembra que um estudante pode estar vivendo situações familiares, emocionais ou sociais que desconhecemos. Isso não significa justificar qualquer atitude, mas compreender que o comportamento humano é complexo e que o professor precisa evitar julgamentos apressados.

Também reconhece que os próprios docentes estão cansados, sobrecarregados e, muitas vezes, emocionalmente fragilizados. Por isso, não defende que assumam responsabilidades que não lhes pertencem, mas que preservem a disposição de dialogar, compreender e buscar apoio quando necessário.

Fiquei pensando em quantas relações pedagógicas poderiam ser transformadas se substituíssemos alguns julgamentos por perguntas.

O que pode estar acontecendo com esse estudante? O que ainda não consegui compreender sobre ele? De que maneira posso ajudá-lo a reconhecer suas possibilidades?

São perguntas que não aparecem nos planos de ensino, mas que podem modificar profundamente a experiência de aprender.

Ser professor é desejar o encontro

Perto do final da nossa conversa, fiz uma pergunta que gosto muito de trazer aos convidados do Docência no Divã: o que significa ser professor? Taíse reconheceu que talvez fosse uma das perguntas mais difíceis de responder.

“Eu acho que é o encontro.” Para ela, ser professor pressupõe desejar a presença do estudante, reconhecer que a docência não acontece de maneira solitária e compreender que o conhecimento ganha sentido quando é compartilhado.

Ser professor não é apenas dominar uma área do conhecimento. É desejar que outra pessoa também possa se apropriar dele, desenvolver-se e construir novas possibilidades para sua existência.

Taíse defende que o professor precisa ser profundamente comprometido com sua área, estudar continuamente e viver aquilo que ensina. Ela utiliza uma ideia muito interessante para explicar essa responsabilidade: o testemunho.

O professor precisa experienciar o conhecimento para conseguir testemunhar sua importância aos estudantes. Na área de Letras, por exemplo, considera fundamental que o docente seja também um leitor, alguém que encontra na leitura uma experiência real e não apenas uma obrigação que recomenda aos outros.

Ao longo da entrevista, Thaíse voltou diversas vezes à formação dos futuros professores. Sua preocupação não é apenas com aquilo que seus estudantes aprenderão na universidade, mas com as pessoas que eles encontrarão quando estiverem diante de suas próprias turmas.

Ao ouvi-la, pensei que talvez uma das maiores responsabilidades da docência seja justamente não desistir tão facilmente das pessoas. Não desistir daquele estudante que ainda não conseguiu aprender. Não reduzir alguém ao seu pior comportamento. Não permitir que uma dificuldade momentânea se transforme em uma sentença definitiva sobre sua capacidade.

Nesta visita a Ijuí voltei com uma pergunta que gostaria de deixar para cada professor que acompanha esta coluna:

Em meio a tantos debates sobre metodologias, tecnologias, inteligência artificial e inovação, será que ainda estamos verdadeiramente interessados nas pessoas que estão diante de nós?

Como nos lembra Thaíse, ensinar é desejar o encontro, reconhecer o outro e acreditar que a transformação humana continua sendo possível.