Professores que ajudam a escolher caminhos e deixam marcas para além da sala de aula

Por Karina Nones Tomelin

Cheguei a Rio do Sul, em Santa Catarina, em um dia chuvoso. A cidade conhece bem a força da água e convive, há anos, com os impactos das cheias. Essa realidade aparece não apenas nas histórias de quem vive ali, mas também na própria arquitetura dos espaços. Na Unidavi, tive a oportunidade de conhecer a biblioteca recém-reformada, transferida para o segundo piso justamente como uma forma de proteção diante das enchentes que já atingiram a região e das expectativas do El Niño para os próximos meses. 

O espaço ficou especialmente acolhedor. Todo revestido de madeira, com estantes, luzes e uma atmosfera aconchegante, fez-me lembrar, quase imediatamente, das bibliotecas dos filmes de Harry Potter. Era daqueles lugares em que dá vontade de ficar mais um pouco, sentar, folhear livros e simplesmente aproveitar o silêncio.

Eu estava na Unidavi para uma palestra sobre inteligência artificial na educação. Antes de subir ao palco, porém, fui ao encontro do professor Jeancarlo Visentainer. Nos encontramos para mais uma edição do Docência no Divã, e bastaram os primeiros minutos de conversa para perceber que eu estava diante de um professor que carrega a docência não apenas como profissão, mas como parte importante de sua identidade. Quase 30 anos de sala de aula, uma trajetória que começou sem que ele imaginasse exatamente onde chegaria e, pelo caminho, professores que marcaram suas escolhas, alunos que depois se tornaram colegas de profissão e uma inquietação que permanece viva: como continuar ensinando quando a sala de aula, os estudantes e as tecnologias não param de mudar?

Os professores que ficam dentro da gente

Jeancarlo não planejava, inicialmente, ser professor. Seu desejo era cursar Direito. Na época do vestibular, porém, as condições financeiras e a alta concorrência o levaram à segunda opção: Letras, Português e Inglês. Chegou a conseguir uma possibilidade de transferência para o curso que desejava originalmente, mas foi nesse momento que um professor atravessou seu caminho.

“Um professor meu me convenceu, o professor Nilson, eu nunca esqueço também. Ele falou: ‘Jeancarlo, por que não termina Letras primeiro? Vai ser legal, vai te ajudar nisso. Depois tu faz Direito. Você vai fazer Direito e vai ter essa habilidade da língua portuguesa também’.”

Jeancarlo resolveu ficar. E aquela decisão, que naquele momento poderia parecer apenas um adiamento do plano original, acabou mudando sua trajetória.

“Só que me apaixonei pela língua inglesa, professora. Amei. E daí não migrei. Durante a faculdade, foi uma conexão com a licenciatura. Principalmente quando a gente entra nos estágios, isso é transformador. E ali eu senti que eu tinha que ser professor.”

A docência foi acontecendo enquanto ele a experimentava. Primeiro veio Letras quase como um caminho alternativo. Depois, o encantamento pela língua inglesa. Em seguida, os estágios. Até que aquilo que não estava no plano inicial começou a parecer exatamente o lugar onde deveria estar. E Jeancarlo não parou na descoberta. Quando percebeu que queria seguir a carreira acadêmica, novamente buscou em um professor apoio para decidir o próximo passo.

“Eu fui atrás de um professor muito querido meu, professor José, ele é aposentado já hoje. E ficam esses nomes na memória da gente, que fazem um caminho com a gente. Eu fui perguntar para o professor: ‘O que precisa fazer para ser professor na faculdade? Quero ser professor de faculdade’. E foi nesse momento que ele falou: ‘Tem que fazer mestrado’.”

E foi o que Jeancarlo fez. Terminou a graduação, ingressou no mestrado em Ciências da Linguagem e começou a construir uma trajetória que o levaria às escolas de idiomas, à docência universitária, à coordenação de curso, à gestão acadêmica e, mais tarde, ao doutorado em Educação.

Enquanto ele contava tudo isso, fui percebendo um detalhe que me pareceu cada vez menos detalhe: Jeancarlo sabia o nome de seus professores. Nilson. José. E, pouco depois, Simone.

Décadas haviam se passado, mas aqueles nomes continuavam ali, associados não propriamente a um conteúdo, uma disciplina ou uma prova. Jeancarlo se lembrava deles porque, em momentos importantes de sua trajetória, foram professores que o ajudaram a pensar sobre o próprio futuro.

Talvez falemos pouco sobre essa dimensão da docência no Ensino Superior: o professor como mentor de carreira. Aquele que, para além de ensinar o conteúdo previsto na ementa, percebe o estudante diante de si, escuta suas dúvidas e o ajuda a enxergar possibilidades que ele ainda não consegue ver sozinho.

Foi assim com Jeancarlo. Quando pensou em abandonar Letras para seguir para o Direito, encontrou em Nilson alguém que o ajudou a olhar com mais cuidado para aquela decisão. Quando decidiu que queria ser professor universitário, foi até José perguntar qual caminho deveria seguir. Não buscava respostas sobre língua portuguesa ou inglesa. Buscava orientação para a vida profissional. 

Que professor eu gostaria de me tornar?

Foi aqui que apareceu a terceira referência: a professora Simone. Jeancarlo se lembra dela sempre sorrindo em sala de aula. Havia naquela disposição uma espécie de convite. A aula se tornava um ambiente agradável, próximo, acolhedor.

“Eu lembro da professora Simone. Ela chegava na sala sempre sorrindo, sempre feliz. E eu pensava: ‘Nossa, eu gostaria de ser um professor desse modelo’. […] Eu queria que os meus alunos também tivessem essa sensação, de chegar na sala e encontrar um professor alegre, uma aula dinâmica.”

Jeancarlo passou a construir aulas em que os estudantes participassem, interagissem e, especialmente no ensino de inglês, perdessem o medo de aprender. Em turmas que chegavam a cerca de 50 alunos, criou dinâmicas, atividades e até usava um apito para organizar os comandos.

E o sucesso foi tamanho que, em determinado momento, os estudantes passaram a pedir autorização para copiar algumas das atividades que ele criava para utilizar em suas classes.

“Duas alunas chegaram para mim e falaram: ‘Professor, eu posso copiar essas atividades?’. Eu falei: ‘Pode, usa, adapta’. […] E depois eu encontrei essas pessoas como professoras. Isso é muito legal.”

E há algo especialmente bonito nessa continuidade. Jeancarlo, que havia acabado de me contar sobre os professores que ajudaram a construir sua própria trajetória, agora se percebia também como parte da trajetória de outros professores. De alguma maneira, a corrente continuava.

Quando o aluno se torna professor

Ao longo de quase três décadas, Jeancarlo viu estudantes mudarem de profissão e escolherem a docência. Alguns tinham outras carreiras consolidadas, outros chegaram ao curso de Letras interessados principalmente em aprender inglês e acabaram descobrindo outra vocação.

Ele próprio experimentou esse movimento ao contrário. Em determinado momento, recebeu um convite para trabalhar na área de exportação. O domínio da língua inglesa abria boas perspectivas e Jeancarlo resolveu experimentar.

Durou dois meses. A experiência serviu, talvez, para confirmar algo que até então ainda pudesse carregar alguma dúvida.

“A sala de aula é transformadora. É um ambiente diferente. Por isso eu sinto que nasci para isso.”

Há escolhas profissionais que fazemos uma vez. E há aquelas que precisamos refazer muitas vezes ao longo da vida. Jeancarlo parece ter escolhido a docência mais de uma vez. E elas se reforçam, por vezes, fora da sala de aula. Ela pode acontecer, por exemplo, no corredor de um supermercado, quando um antigo aluno o encontra depois de anos e diz: “Professor, que saudade das aulas de inglês.” 

Para Jeancarlo, aquele encontro diz algo que dificilmente cabe em um formulário de avaliação: “Poxa, então eu realmente toquei esse aluno”. O interessante é que o estudante não havia guardado apenas alguma lembrança das aulas; ele ainda reconhecia Jeancarlo como seu professor. E isso ganha um significado especial depois de ouvi-lo, ao longo de toda a nossa conversa, citar pelo nome os docentes que marcaram sua própria trajetória. Jean lembrava de seus professores. Agora, descobria que também havia se tornado um professor do qual os alunos se lembram.

Ensinar a voar mais alto

Perto do final da nossa conversa, pergunto a Jean o que é ser professor. Sua resposta recupera uma imagem que havia aparecido minutos antes. Para ele, a educação começa muito antes da universidade. A família, diz, oferece as primeiras referências, como um ninho no qual o passarinho começa a descobrir suas asas. À escola e à universidade cabe outra tarefa.

“Ensinar a voar mais alto.”

Jeancarlo encontrou professores que, em momentos decisivos, o ajudaram a enxergar possibilidades que ele sozinho ainda não conseguia ver. Um sugeriu que permanecesse em Letras. Outro lhe mostrou o caminho para chegar à docência universitária. Outra lhe ensinou, pelo sorriso, que a sala de aula também podia ser um lugar de acolhimento.