Depois de mais de 30 anos de docência, Patrícia Radaelli mostra que ensinar continua sendo um exercício de escuta, leitura do outro e permanente reconstrução

Por Karina Nones Tomelin

Conheci a professora Patrícia Radaelli em Cascavel, no Paraná, durante uma palestra que realizei na FAG. É sempre uma surpresa conhecer professores que inspiram em suas universidades em um movimento crescente de compromisso profissional com a docência. No caso da profa. Patrícia, havia a experiência de quem carrega mais de três décadas de sala de aula, mas, ao mesmo tempo, uma inquietação que não combinava com qualquer ideia de acomodação. Foi por isso que quis levá-la ao Docência no Divã.

Patrícia começou cedo. A docência já fazia parte de sua vida antes mesmo que ela pudesse chamá-la de profissão: sua mãe é professora há mais de 50 anos. Fez magistério e, aos 17, entrou em sala de aula. Depois vieram a graduação em Letras e Pedagogia, especializações, mestrado e doutorado. Ao longo da carreira, transitou pela educação básica, ensino médio, graduação e pós-graduação, sempre acompanhada por aquilo que talvez seja uma de suas características mais marcantes: a curiosidade.

Ao ouvi-la contar sua trajetória, fica difícil separar formação acadêmica de formação humana. Patrícia não descreve sua carreira como uma sucessão de títulos, cargos ou disciplinas. Prefere falar das pessoas, das experiências e das trocas que foram compondo a professora que é hoje.

“Eu fui me compondo, me construindo como professora, a partir de várias experiências, em diálogos com os colegas, com os espaços de atuação profissional. Então, eu penso que tive inspiração em casa e depois com excelentes professores. Tive a sorte em encontrar várias pessoas bacanas, com muito conhecimento e amor à profissão, com generosidade, e que fizeram parte da minha formação.”

Trinta anos depois, outra professora

Perguntei à Patrícia quanto tempo de docência havia naquela história toda. “Mais de 30 anos”, respondeu. A frase poderia anunciar uma professora que já viu de tudo. Poderia trazer consigo a segurança de quem encontrou uma fórmula, consolidou um método e agora simplesmente o reproduz. Mas acontece exatamente o contrário.

Patrícia fala sobre sua experiência sem transformá-la em certeza. Depois de três décadas ensinando, ela continua olhando para cada nova turma como algo que ainda precisa compreender.

“Eu acredito que, realmente, não sou a mesma professora do início. E nem mesmo a professora do semestre passado. A experiência vai nos trazendo outras formas de olhar para a sala de aula, para os alunos e para a própria maneira de ensinar. Eu sinto que continuo aprendendo e me reconstruindo como professora”

De fato, um dos maiores riscos de uma longa trajetória docente é acreditar que o tempo de profissão nos autoriza a repetir. A mesma disciplina. Os mesmos slides. As mesmas atividades. As mesmas explicações. Afinal, já fizemos aquilo tantas vezes que sabemos exatamente como fazer. Contudo, Patrícia nos lembra de algo óbvio que, na rotina, podemos esquecer: a disciplina pode ser a mesma; os estudantes nunca são.

“Por mais que, de repente, me pegue lecionando uma mesma disciplina, a aula nunca será a mesma. São outros alunos, outro contexto, outro momento.”

Voltamos um pouco no tempo, para lembrar quando Patrícia começou na docência.  A relação com a informação era completamente diferente. Viveu um tempo em que pesquisar significava esperar o livro chegar à biblioteca. Depois acompanhou a popularização da internet. Lembra-se, inclusive, das discussões sobre permitir ou não notebooks em sala de aula.  Debate que hoje parece pertencer a outro século diante da presença dos smartphones e, mais recentemente, da inteligência artificial.

As ferramentas mudaram. Os estudantes mudaram. A sociedade mudou. E o professor? Precisa mudar também. Mas não necessariamente abandonando tudo aquilo que o constitui. Para Patrícia, algumas dimensões permanecem essenciais: domínio do conhecimento, formação permanente, capacidade de selecionar metodologias e, sobretudo, compreensão de quem é o estudante que está diante de nós.

Antes respondíamos. Agora precisamos aprender a perguntar

Em determinado momento da conversa, Patrícia fez uma síntese particularmente interessante sobre as transformações pelas quais a educação passou.

“Durante muito tempo, aprendemos a responder perguntas prontas, e hoje estamos aprendendo a fazê-las, instigando os nossos alunos a terem curiosidade para aprender, para buscar o conhecimento e problematizar a realidade”.

Em tempos de inteligência artificial, essa inversão ganha ainda mais força. Se as respostas estão disponíveis em segundos, talvez uma das competências mais importantes que a universidade possa desenvolver seja justamente a capacidade de perguntar. Perguntar bem exige repertório, perceber lacunas, desconfiar, relacionar informações e formular hipóteses.

“Se considerarmos que a inteligência artificial está disponível hoje, em diferentes espaços, precisamos compreender que aprender a fazer excelentes perguntas é o grande enfoque que precisa ser explorado: despertar a curiosidade, fazer com que o nosso aluno entenda que questionar a realidade é também um caminho para o aprendizado”.

Se durante muito tempo o professor foi reconhecido pela capacidade de oferecer respostas, Patrícia parece nos convidar a pensar o professor contemporâneo também como alguém capaz de produzir boas perguntas e ensinar seus estudantes a formulá-las.

O professor como leitor

Patrícia é formada em Letras. E talvez venha daí uma das imagens da nossa conversa. Para ela, o professor precisa ser, antes de tudo, um leitor. Mas não apenas um leitor de livros.

“Quando se pensa no papel da linguagem, como uma forma de se reorganizar o pensamento e promover a comunicação, é imprescindível que se entenda quem é o outro com quem você vai se comunicar, quais são os seus objetivos nesse processo, como vai se fazer entender, como vai ler esse ambiente, ler o mundo, ler o contexto e, quando professor, como vai preparar as suas aulas.”

Ler a sala. Ler o silêncio. Ler o entusiasmo. Ler aquele estudante que participa de tudo e aquele que tenta desaparecer no fundo da sala. Ler quando uma atividade funcionou e quando é preciso mudar a rota. Essa leitura antecede a metodologia.

Às vezes, na busca por inovação, podemos cair na tentação de escolher primeiro a ferramenta: gamificação, sala de aula invertida, seminário, projeto, quiz, aprendizagem baseada em problemas. Patrícia propõe inverter essa lógica.

“Nem tudo vai funcionar, nem todas as metodologias funcionam em turmas diferentes. Existem turmas que você precisa de uma metodologia mais participativa e ativa, e existem turmas que a metodologia pode ser mais expositiva num primeiro momento, para logo depois, se promover uma interação entre os seus pares – por exemplo e, depois, ir para uma apresentação.”

Essa perspectiva retira a metodologia do lugar de receita e devolve ao professor a responsabilidade pedagógica pela escolha. Não existe metodologia ativa por decreto. Existe intencionalidade.

Para quem estou preparando esta aula?

Patrícia trabalha, atualmente, no ensino superior e também atua em um núcleo de atendimento e apoio ao estudante. A experiência ampliou ainda mais sua percepção sobre a diversidade presente dentro da universidade.

São estudantes com histórias escolares diferentes, necessidades distintas, modos particulares de organizar os estudos e diferentes formas de aprender. E todos estão percorrendo um caminho que, ao final, os levará ao exercício de uma profissão.

Por isso, antes de preparar a aula, Patrícia considera fundamental olhar para o perfil de formação daquele estudante.

“Se eu assumir uma disciplina em um curso específico – no ensino superior – eu precisarei considerar qual é o perfil do meu egresso, que aluno eu vou contribuir para que seja formado, para irá depois exercer com competência, com propriedade, com responsabilidade a sua profissão.”

Em vez de pensar apenas “o que preciso ensinar nesta disciplina?”, passamos a perguntar “para a formação de quem estou contribuindo?” Parece uma diferença pequena. Não é. Quando o professor compreende o profissional que está ajudando a formar, conteúdo, metodologia e avaliação deixam de ser partes isoladas. Passam a integrar um projeto maior.

Saber uma profissão não é o mesmo que saber ensiná-la

Muitos professores universitários chegam à sala de aula depois de trajetórias consistentes em suas áreas profissionais. São engenheiros, advogados, médicos, fisioterapeutas, administradores, jornalistas. Conhecem profundamente suas profissões, mas nem sempre tiveram formação para a docência.

Patrícia observa que, nesses casos, uma das primeiras referências do novo professor costuma ser a própria experiência como estudante. Ensina-se, inicialmente, como fomos ensinados. Até descobrirmos que isso não basta.

“Quando começam a atuar, eles precisam, sim, dessas trocas dos seus pares, de estudos, de formação, para entender que a docência exige comprometimento. Eu não sou só o profissional, eu sou o profissional que vai promover condições para que o outro aprenda.”

Dominar um conhecimento é uma coisa. Criar condições para que outra pessoa se aproprie dele é outra. É aí que começa a docência.

“A linguagem nos constitui. Em todas as áreas, nas engenharias, nas áreas sociais, humanidades, nas licenciaturas, o professor essencialmente precisa saber interagir. Existem questões importantes, conteúdos que precisam ser entendidos, mas a interação é a essência do ser professor”.

O professor organiza uma experiência antes de entrar em sala. Quando encontra os estudantes, porém, precisa estar disponível para perceber aquilo que o planejamento não conseguiu prever.

“É preciso uma visão ampla e analítica do professor para que ele consiga sistematizar essas informações, mas também muito humana, de se conectar com esse estudante e entender que o planejamento às vezes precisa ser refeito a partir disso.”

Compositor, escritor, editor e curador

Já perto do fim da nossa conversa, Patrícia trouxe uma ideia que ajuda a compreender a complexidade da profissão. Ela gosta de pensar o professor por meio de diferentes analogias: compositor, escritor, editor, curador.

O compositor organiza elementos para produzir algo que antes não existia. O escritor transforma pensamentos em linguagem. O editor escolhe, reorganiza, corta, destaca. O curador seleciona aquilo que, entre tantas possibilidades, merece ser apresentado.

“O professor é uma figura extremamente importante nesse processo de formação, porque ele precisa dar condições para que o aprendizado aconteça. Mas o outro também precisa querer, o aluno precisa querer.”

Quando perguntei à Patrícia o que significa ser professor, depois de mais de 30 anos vivendo a profissão, ela não falou sobre transmitir conteúdo.

“É complexo. Ser professor é criar condições para que o outro aprenda, é promover um diálogo com responsabilidade, com generosidade, com comprometimento, é criar condições para que o outro se desenvolva.”

Ao final da nossa conversa, ficou em mim uma das lições mais bonitas da trajetória docente da professora Patrícia: ser professor não é chegar a um lugar em que finalmente sabemos ensinar, mas conservar, mesmo depois de mais de 30 anos, a curiosidade e a generosidade necessárias para continuar aprendendo com aqueles que chegam para aprender conosco.